O Brasil se prepara para sediar a Copa do Mundo Feminina de 2027, um evento que promete ser o maior da história, mas que carrega o desafio urgente de superar o machismo estrutural no futebol.
Enquanto o planeta respira a efervescência da Copa do Mundo de 2026, as atenções começam a se voltar para o nosso território. Em 2027, o Brasil será o palco da Copa do Mundo Feminina, uma oportunidade singular de consolidar o esporte como uma potência nacional. No entanto, o otimismo convive com uma realidade incômoda: a luta por igualdade em um esporte onde o protagonismo feminino ainda precisa ser conquistado palmo a palmo diante de uma hegemonia masculina histórica.
O caráter contraditório da modalidade já deu sinais logo no lançamento da sede brasileira. O evento, que deveria ser um tributo às mulheres, acabou ofuscado por homenagens excessivas a ídolos do futebol masculino. Esse episódio reflete um padrão: apesar dos avanços, o machismo insiste em reduzir o espaço e a visibilidade das nossas craques. A pergunta que fica, com a chegada da décima edição do torneio, é se finalmente veremos o respeito e a valorização que o talento das nossas atletas exige.
Raízes da desigualdade
A disparidade no futebol não é um fenômeno novo, mas um reflexo de décadas de negligência. A primeira Copa do Mundo Feminina oficial da FIFA ocorreu apenas em 1991, na China — 61 anos após a estreia masculina. Naquele início, a falta de seriedade era tamanha que a própria entidade limitava os jogos a 80 minutos, sob a alegação falaciosa de que o corpo feminino não suportaria o tempo regulamentar padrão.
Além disso, a falta de investimento era gritante. Enquanto o torneio masculino já era um fenômeno comercial, o mundial feminino de 1991 dependia de um único patrocinador. A ausência de premiação em dinheiro para as atletas na época escancara um abismo histórico que, apesar dos avanços até 2023, ainda separa as realidades financeiras de homens e mulheres no esporte.
A resistência brasileira
A trajetória do futebol feminino no Brasil é marcada pela resiliência. Entre 1941 e 1979, o esporte foi proibido por um decreto da era Vargas, que considerava a prática incompatível com a “natureza feminina”. Atletas foram detidas e a modalidade foi empurrada para a clandestinidade por quase quatro décadas, sobrevivendo graças à coragem de mulheres que se recusaram a abandonar o sonho de jogar.
Nomes como Formiga simbolizam essa luta pela sobrevivência e pela regulamentação tardia, que só aconteceu em 1983. O futebol, que deveria ser a paixão nacional, foi durante muito tempo um território hostil, moldado para excluir quem ousasse desafiar o status quo de um esporte visto como exclusivamente masculino.
Expectativas para 2027
O Brasil de 2027 será o primeiro país sul-americano a receber o mundial, com a promessa de uma infraestrutura sem precedentes. Com murais já colorindo cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, o país se veste para o espetáculo. Mas, para além das arenas lotadas, o grande teste será social.
O objetivo é claro: que a Copa seja um espelho para novas gerações de meninas. Como diz a expectativa geral dos amantes do esporte: “a Copa de 2027 precisa ser o marco definitivo onde a igualdade deixa de ser um discurso e passa a ser a regra”. Se o Brasil é, de fato, o país do futebol, chegou a hora de provar que essa paixão não tem gênero e que o protagonismo feminino é o ingrediente que faltava para elevar o nosso esporte ao patamar que ele realmente merece.










