A iminente Copa do Mundo Feminina de 2027, sediada no Brasil, projeta lucro recorde para a Fifa, mas especialistas alertam que o verdadeiro sucesso da competição dependerá da valorização real das atletas.
A contagem regressiva para a Copa do Mundo Feminina de 2027 no Brasil já movimenta os bastidores da modalidade. Com promessas de ser um divisor de águas, o torneio tem atraído olhares atentos não apenas pela disputa em campo, mas pelo impacto financeiro. Segundo Jill Ellis, diretora de futebol da Fifa, a expectativa é que o Mundial seja o primeiro na história a gerar lucro de forma independente, superando o investimento de cerca de US$ 800 milhões.
Essa projeção coloca o futebol feminino em um novo patamar de mercado. Contudo, entre recordes de audiência e novos patrocinadores, surge uma interrogação essencial para o cenário nacional: o quanto desse crescimento econômico será revertido, de fato, em melhores condições estruturais e valorização das jogadoras?
O peso da história e a superação das barreiras
Para a historiadora e escritora Aira Bonfim, o otimismo com o lucro financeiro não deve ofuscar os desafios históricos. O desenvolvimento do alto rendimento feminino enfrenta um abismo temporal em relação aos homens. Enquanto o futebol masculino consolidou suas instituições por mais de um século, as mulheres lidaram com décadas de proibição e marginalização institucional.
“O futebol feminino de alto rendimento ainda é um projeto em desenvolvimento. É uma modalidade recente quando comparada ao masculino. Enquanto o futebol de homens teve mais de um século para consolidar clubes, competições, mercado e instituições, as mulheres viveram um processo completamente diferente.”
Lucro é apenas o primeiro passo
A pesquisadora reforça que o sucesso da Copa 2027 não pode ser resumido a balanços financeiros. Para ela, valorizar a modalidade vai além da remuneração de elite. Trata-se de construir uma base sólida que inclua o fortalecimento das categorias de base, a profissionalização definitiva dos clubes e calendários mais justos para as atletas.
“Valorizar o futebol feminino não significa apenas aumentar remuneração ou premiar quem está na elite. Significa fortalecer a formação de meninas, profissionalizar clubes, melhorar calendário, condições de trabalho, ampliar a presença de mulheres em todas as áreas desse mercado e criar uma estrutura que permaneça depois da Copa.”
Um legado para além das quatro linhas
Mais do que gols e troféus, o torneio no Brasil carrega uma carga simbólica de cidadania. Aira Bonfim destaca que o futebol feminino tornou-se, hoje, uma ferramenta de luta por direitos e liberdade. A presença massiva de meninas e mulheres nas arquibancadas e nos centros de treinamento é um reflexo de uma sociedade que começa a reconhecer a importância desse espaço.
A grande prova de fogo será o período pós-torneio. O impacto da Copa do Mundo Feminina será medido pelas políticas públicas e pela infraestrutura que restará como legado. Se os investimentos deixarem raízes profundas, o evento terá cumprido seu papel histórico: transformar o país não apenas na casa do futebol, mas em um lugar onde o jogo, enfim, pertence a todas.









